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Gestão para PMEs#Orçamento#Gestão#PME

Orçamento de marketing para PME: onde cortar sem afundar receita

Cortar marketing errado custa anos de receita. Um framework, com pesquisa real de efetividade publicitária, para revisar orçamento sem afundar o pipeline.

LLucas Farinha8 de julho de 20267 min de leitura

Quando o caixa aperta, marketing costuma ser a primeira linha cortada do orçamento. Faz sentido na superfície: folha de pagamento e aluguel parecem fixos, marketing parece opcional. O problema é que essa decisão, tomada sem critério, é uma das mais caras que uma PME pode bater, porque o efeito do corte não aparece no mês seguinte, aparece um ou dois anos depois, quando o pipeline que devia ter sido construído agora simplesmente não existe.

Este artigo não defende nunca cortar marketing. Defende cortar com critério, sabendo a diferença entre o que é gordura e o que é o motor da receita futura, com base em pesquisa real de efetividade de marketing, não em intuição de quem está sob pressão de fechar o mês.

Por que cortar marketing sem critério custa mais do que parece

A evidência mais antiga e mais citada sobre isso vem de uma recessão de mais de quarenta anos atrás. A McGraw-Hill Research analisou 600 empresas industriais americanas durante a recessão de 1981-1982 e encontrou que as empresas B2B que mantiveram ou aumentaram o investimento em marketing durante a recessão cresceram em vendas de forma significativamente maior, tanto durante a crise quanto nos três anos seguintes, do que as que cortaram ou eliminaram o investimento. O estudo é antigo, mas o padrão se repetiu em recessões posteriores, e virou uma das referências mais citadas em efetividade publicitária.

A pesquisa mais recente confirma o mesmo padrão com outra métrica. Peter Field, analisando o banco de dados de mais de 880 estudos de caso do IPA (Institute of Practitioners in Advertising) britânico, mostrou que manter o "share of voice" (a fatia de presença de marca) igual ou acima do "share of market" (a fatia de mercado que a empresa já tem) durante uma retração de mercado está associado a maior lucratividade no longo prazo, e que o custo de deixar o share of voice cair abaixo do share of market é maior justamente durante a crise, não menor. Cortar tudo defende o caixa no curtíssimo prazo, mas devolve, segundo a mesma pesquisa, uma marca mais fraca e menos lucrativa quando a crise passa.

O padrão nos dois estudos, com quatro décadas de distância entre eles, é o mesmo: corte de marketing sem critério parece economia hoje e vira conta mais cara amanhã.

Nem tudo no orçamento de marketing é igual

O erro mais comum na hora de cortar não é cortar, é cortar de forma linear, um percentual igual em tudo, como se cada linha do orçamento tivesse o mesmo papel. Não tem.

Les Binet e Peter Field, no estudo "The Long and the Short of It", publicado pelo IPA a partir de quase mil casos de efetividade publicitária ao longo de mais de quinze anos, mostraram que investimento de marketing se divide em dois efeitos diferentes: construção de marca, de efeito mais lento e mais duradouro, que constrói disponibilidade mental pro futuro, e ativação, de efeito mais rápido e mais curto, que converte demanda que já existe agora. A proporção mais citada do estudo é 60% para construção de marca e 40% para ativação, mas os próprios autores fazem questão de dizer que essa proporção não é regra fixa, varia por categoria, porte e momento da empresa. Para empresa B2B especificamente, a proporção observada tende a ficar mais equilibrada, próxima de 46% construção de marca e 54% ativação, refletindo uma decisão de compra mais racional e mais dependente de relacionamento do que a de consumo.

O ponto prático para uma PME não é decorar 60/40 ou 46/54 como fórmula mágica. É entender que cortar 100% de um desses dois efeitos, geralmente construção de marca, por parecer "menos mensurável no curto prazo", tira exatamente o motor que sustenta a receita depois que a crise passa.

Onde cortar primeiro, de fato

Com esses dois princípios (não zerar o que constrói, e proteger o que já é barato), a ordem prática de revisão de orçamento fica mais clara.

Corte primeiro o que não tem meta de retorno definida. Se um canal de mídia paga roda há meses sem meta de custo por lead ou custo por venda, ele é o candidato número um ao corte, não porque mídia paga seja ruim, mas porque gastar sem meta é o desperdício mais fácil de identificar e o mais barato de parar.

Corte ferramenta redundante antes de cortar gente ou canal que já performa. É comum uma PME acumular assinatura de duas ou três ferramentas que fazem a mesma coisa, herança de decisões tomadas em momentos diferentes. Auditar isso raramente dói.

Proteja a base de clientes que já comprou. Segundo pesquisa da Bain & Company, publicada pela Harvard Business Review, conquistar cliente novo custa entre cinco e vinte e cinco vezes mais que reter um cliente que já existe, e um aumento de apenas 5% na taxa de retenção pode elevar o lucro entre 25% e 95%, dependendo do setor. Cortar a régua de relacionamento com quem já comprou pra "economizar" é cortar exatamente a parte mais barata do orçamento.

Não zere presença de marca, mesmo reduzindo o volume. Segundo a pesquisa do IPA, sair completamente de cena durante um período de aperto é o que mais penaliza a recuperação depois. Reduzir volume é diferente de desaparecer.

A visibilidade em busca e em IA, corte por último, por último mesmo. Ficar fora do radar em SEO, GEO e AEO durante um período de corte significa que, quando a empresa quiser voltar a crescer, o concorrente que manteve presença já ocupou o espaço nas respostas de busca e de IA, um espaço que demora para reconquistar.

O framework de decisão em quatro perguntas

Antes de cortar qualquer linha do orçamento de marketing, o Método LEAN sugere perguntar, nessa ordem:

  • Eu sei o retorno real disso hoje, ou só a impressão de que funciona? (a disciplina de Leitura decide isso, não achismo)
  • Isso gera cliente novo ou retém cliente que já existe? (retenção corta por último, é a parte mais barata do orçamento)
  • Isso é presença que compete por atenção humana, atenção de IA, ou as duas? (cortar visibilidade em busca e GEO/AEO tem custo de reconquista maior do que parece)
  • Eu vou cortar de vez, ou pausar e medir antes de decidir? Corte definitivo sem teste é decisão tomada duas vezes mais rápido do que devia.
Cenário ilustrativo

Uma empresa de indústria na região de Balneário Camboriú, sob pressão de reduzir custo, cortou pela metade o orçamento inteiro de marketing de forma linear, incluindo a régua de relacionamento com clientes ativos e o investimento em conteúdo de SEO que vinha gerando tráfego orgânico havia dois anos. Seis meses depois, o tráfego orgânico tinha caído e não voltou no mesmo ritmo, e o time comercial notou queda de recompra na base antiga. O corte "economizou" no curto prazo e custou mais caro no médio prazo, exatamente o padrão que a pesquisa do IPA e da Bain já haviam documentado décadas antes.

Perguntas frequentes

O que costumam perguntar

Não existe percentual universal. O que a pesquisa mostra é que corte linear, sem diferenciar aquisição de retenção nem canal com meta de canal sem meta, é a decisão que mais penaliza a receita futura.

Depende do que a mídia paga está entregando. Mídia sem meta de retorno definida é, na maioria dos casos, o corte mais seguro e mais rápido antes de qualquer decisão sobre time.

Depende do papel que a rede social cumpre. Se é canal de geração de oportunidade mensurável, entra no mesmo critério das outras mídias: meta clara continua, meta ausente é candidata a corte. Se é canal de relacionamento com base existente, entra no critério de retenção, que corta por último.

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Lucas Farinha
Escrito por
Lucas Farinha
Fundador da leanconsult · Criador do Método LEAN

Fundador da leanconsult e criador do Método LEAN. São 17 anos de marketing B2B, construídos em Brasília e em mercados exigentes: marketing estratégico, branding, growth e geração de demanda, com passagens por tecnologia, SaaS, e-commerce e eventos corporativos, além da liderança de equipes. Trabalha na fronteira entre marketing, vendas e resultado de negócio.

lucasfarinha.com

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